Embora conheça o João pessoalmente, as nossas sessões de coaching são sempre por videochamada, devido à distância que nos separa. Na semana passada, mal ele atendeu a chamada percebi imediatamente que alguma coisa se passava com ele, tinha um olhar distante e triste, nada habitual nele.
Quando lhe perguntei o que se passava disse-me que a sua cadelinha tinha falecido uns dias antes e talvez fosse por isso que estivesse mais em baixo. É claro que eu própria também fiquei sensibilizada, além de adorar animais, sei o que custa perde-los. Mas a minha preocupação maior teve a ver com as crianças, como estariam a reagir os filhos deste meu cliente? A resposta dele foi simplesmente impressionante e foi o mote para este artigo. Quando perguntei ao João como estavam a reagir os filhos dele à morte da sua cadela, ele responde: – “Ah, com as crianças é tudo mais fácil. Elas choram e pronto, passa. Depois fica tudo bem.”

A nossa sessão de coaching prossegui normalmente, mas a verdade é que aquela resposta não me saiu da cabeça. Comecei a refletir sobre a forma como a minha filha e as outras crianças que conheço lidam com as suas tristezas e é mesmo verdade. O João tem mesmo razão, as crianças lidam com a tristeza de uma forma muito mais simples e prática do que nós adultos. Quando as crianças têm algum problema, seja ele um grande problema ou aparentemente algo mais insignificante, elas manifestam o seu desagrado, choram, gritam, esperneiam, mas depois passa. Na maioria das vezes, passado algumas horas parece que o problema já nem existe.
Nós, adultos, fazemos exatamente o contrário. Em primeiro lugar colocamos a mente a trabalhar, o nosso primeiro impulso é arranjar uma solução para o problema ou, quando isso não é possível, um culpado. É muito raro aceitarmos a tristeza que um determinado problema nos provoca, é muito raro fazermos os nossos lutos. É claro que é crucial apurar responsabilidades e descobrir soluções para que os problemas não se repitam, mas isso, só numa segunda fase. Em primeiro lugar temos de sentir o problema, mesmo que para isso seja preciso chorar, gritar, espernear, tal como as crianças fazem. Caso contrário corremos o risco de aprisionar as tristezas e angustias dentro do nosso coração, tornando-nos pessoas igualmente tristes e angustiadas. Não seria mais fácil sermos como as crianças? Não serão as crianças mais felizes do que nós?

Mas se todos nós já fomos crianças, quando é que desaprendemos isto tudo? Quando é que deixámos de dar importância aquilo que sentimos? Quando é que passámos daquela criança sensível para um adulto durão? É certo que nem todos os adultos são adultos durões, mas mesmo os adultos mais sensíveis, às vezes recriminam-se por isso.

Ninguém gosta de ver uma criança fazer uma birra, sai fora do que é socialmente aceitável e, talvez por isso nos deixemos destas coisas à medida que vamos crescendo. Mas a verdade é que há coisas na vida que nos magoam: há coisas que gostávamos de ter e não temos, há pessoas que gostávamos que fossem eternas e não são, há doenças que gostávamos que nunca tivessem existido e existem. E se nos permitíssemos chorar essas coisas que nos magoam, a vida tornar-se-ia mais leve e seria muito mais fácil ver as outras coisas, as coisas maravilhosas que temos na vida e seriamos muito mais felizes.

Categories: Coaching

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